domingo, 29 de junho de 2014

Alegrias e pesares de uma Copa



As emoções geradas pelo esporte são capazes de transformar realidades. A alegria pela vitória ou a frustração de uma derrota são sentimentos que unem famílias, que nos humanizam e eternizam momentos. E foi exatamente nesta conclusão que cheguei ao assistir o jogo entre Brasil e Chile no último sábado.

A Copa do Mundo no Brasil é uma grande controvérsia, e particularmente tenho críticas severas à realização do evento em nosso país. Duvido muito do chamado e tão falado “legado” da Copa para nós brasileiros. Não concordo com essa ideia de gente que nunca saiu às ruas para protestar e vem com esse “blá blá blá” de que protesto tem que ocorrer na urna. Protesto tem que ocorrer agora sim, pois a irresponsabilidade de governantes corruptos, que pensam apenas em seus pequenos e medíocres interesses, precisa ser denunciada publicamente. Afinal, é incoerente gastar bilhões em estádios padrão Fifa, enquanto 40% dos lares brasileiros não tem nem saneamento básico, isso sem falar nas estruturas da rede escolar e de saúde. Além disso, todo o efetivo policial brasileiro está aglomerado nas capitais onde ocorrem jogos, enquanto no interior os órgãos de segurança pública fazem milagre para conter a violência durante a copa. Obviamente, a intenção é passar a impressão de sermos um país seguro. Assim, temos motivos de sobra para protestar, pois o que existe durante a Copa é uma maquiagem da realidade brasileira para “gringo” ver. 

Entretanto, uma coisa são nossas mazelas sociais, nossos problemas socioeconômicos, e outra coisa é o esporte. Apesar de pensar que os jogadores brasileiros não fazem seu papel social como figuras públicas de nossa sociedade, pois poderiam usar de sua influência para "rasgar o verbo" e lutar pelas causas do povo, não podemos confundir as coisas. O esporte é o esporte, e deve ser visto como esporte, por isso não me privei de assistir aos jogos da Copa. E se uma Copa do Mundo tem um legado, certamente é com as famílias, poucas vezes as vejo se reunindo por algo, e o esporte tem essa capacidade. Nesses tempos de Copa todos entendem um pouco de futebol, o nervosismo, a aflição, a emoção e a alegria de um gol podem até ser o “ópio” deste povo, mas é inegável o quão bem isso faz para as famílias. Pais e filhos que talvez nunca derramem uma lágrima juntos, se abraçam aos prantos, na emoção de uma vitória. 

Apesar dessa beleza de sentimentos que a Copa instiga, aqueles que estão nos estádios em sua grande maioria não representam o povo brasileiro, pois o assalariado que vive com um salario mínimo não tem R$150,00 ou mais para pagar em um ingresso (por isso talvez só saibam cantar “eu sou brasileiro” e “o campeão voltou”). Um pesar, pois a festa seria verdadeiramente brasileira, se o povo brasileiro pudesse mostrar sua cara nos estádios. Ah como seria uma verdadeira festa, com o calor, a alegria, a criatividade e acolhida deste povo. Certamente não veríamos um bando de mal-educados a vaiar o hino nacional do adversário, estes “coxinhas” certamente não representam o verdadeiro povo brasileiro.

Assim, a copa é lugar para tudo: para protestar e lutar por um Brasil melhor e para o esporte mostrar sua força de reunir famílias e nações. Pensando em tudo isso, desejo que o “ópio” das alegrias futebolísticas consiga rasgar o véu da hipocrisia brasileira, que possamos deixar de olhar nosso voto como algo em favor dos nossos interesses particulares. Que não nos conformemos com “migalhas” dadas por governos corruptos, mas que possamos tomar para nós, nem o presente, nem o passado, mas uma mudança radical para um país mais digno e humano em todas as esferas sociais.

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